24.5.12

Festa do Divino: religiosidade e transgressão social


Em 1323, tomada por grande fervor religioso, D. Isabel, a rainha santa (1271-1336), casada com o rei de Portugal, D. Diniz, decidiu celebrar a festa do Espírito Santo coroando simbolicamente um imperador e dois reis. Após a cerimônia, o “império do Divino” saiu às ruas ao som de trombetas e acompanhado por uma multidão. Começava ali uma longa tradição de celebrações religiosas que resiste até hoje. 
 
No Brasil, as festividades do Divino Espírito Santo praticamente desapareceram das grandes cidades. Há alguns séculos, no entanto, eram realizadas nos maiores centros urbanos coloniais e causavam tamanho envolvimento da população que chegaram a preocupar as autoridades, como uma ameaça à ordem pública. 
 
Os primeiros registros dos festejos em terras brasileiras são do século XVIII. Sob o título "Livro das sortes que se tiraram na igreja Matriz da vila de Itu/SP para festejos do Divino Espírito Santo (1765-1799)", estão relatadas, ano após ano, todas as providências para o evento, como as contribuições em dinheiro para missa, o sermão e a música, e doações de alimentos (carne, trigo, farinha, arroz, azeite, ovos etc.).
 
Em 1765, por exemplo, foram arrecadadas em Itu/SP, cerca de 150 quilos de carne. O documento também lista os devotos escolhidos para compor os personagens da festa. Havia o imperador, o capitão da guarda, o pajem do estoque (provavelmente responsável pela guarda e distribuição de alimentos), o alferes da bandeira, entre outros. 

Um dos elementos que mais chamam a atenção nas festas é a ocorrência do “tempo alegre”, prática marcada pelas inversões simbólicas da ordem social, em que crianças ou adultos eram coroados como imperadores do Divino. Antes disso, havia a saída das folias, momento em que grupos de devotos percorriam as ruas em busca de esmolas para a festa portando bandeiras vermelhas com pombinhas bordadas em branco, símbolo do Espírito Santo. 
 
Os agentes da Coroa temiam que a brincadeira virasse realidade, que a festa lúdica acabasse inspirando revoltas efetivas. Era, portanto, preciso impedir o envolvimento desta população com os rituais de alteração simbólica da ordem e da hierarquia social, característicos daquelas festividades.
Após a emancipação política (1822), aumentou a tolerância das autoridades urbanas com os festejos. Porém, em nome dos ideais de “progresso e civilização”, os imperadores e suas pombas brancas do Divino tornaram-se figuras raras nas grandes cidades. 

 

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